Será que o meu desabrochar é para dentro? Não consigo pensar em nada lá fora. Não consigo imaginar qual lugar seria o ideal. Não consigo pensar em nada a não ser tudo o que acontece aqui dentro. A não ser a solidão. Pensava ser solitude a melhor palavra para descrever, tão tola. Solidão é a palavra certa, tão ão, imensa, desconhecida, vasta. Difícil explicar. É aquele segundo de quietude que vem com uma madrugada de dia de semana após horas lendo antes de apagar a luminária. É o último gole da taça de vinho na sala vazia. É o vento rasgando a pele num dia de chuva onde se insiste em correr sozinha com o tempo fechado. É esperar a chuva vir e entender que ela só vem quando o tempo quer. E a gente sempre querendo fazer o tempo, não vemos que ele só se faz melhor quando se faz sozinho. Tanto quanto a vida. É ter esperança. É ver aventura nas pequenas coisas. É ver aviso no arco-íris. É sonhar com ele depois de tanto tempo, seus traços tão imperiais, a tez tão macia. É ter medo de não superar. Como fui deixar tudo tão pra trás? Eu ainda sinto o cheiro do sonho. Eu o abraçava com tanta força, fechava os olhos e sentia junto com o cheiro ao respirar uma sensação de completude, do tipo "ele está aqui, finalmente". Sempre tão imponente, tão bonito. Apesar de ser um sentimento de peso, fico feliz pela lembrança, por estar tudo tão bem guardado no inconsciente depois de tantos anos. Sempre foi ele, e aquela sempre fora o meu mais eu. Tantas vezes tentei dizer adeus aqui dentro, tantas vezes me entreguei de novo. Mas eu sei no fundo, que o meu destino é o passado e sua consequente solidão. E fico bem aqui sozinha, parece que meus gritos fazem eco de tanto deserto. Os abismos ainda existem e eu caminho à beira vendo as pequeninas pedras espatifarem antes de chegar ao chão. O vento é tão forte que se viro sem aviso me sinto cortada até o fundo da carne. É vida. Estranho as peças se encaixando e o mundo rodando tanto. Cada pequeno cristalzinho flutuando no ar, cintilando com as pontadas de luz que os fazem mudar de cor. Tudo tão vivo. E eu sempre danço com os movimentos mais inusitados. Salve a última dança como dizem. Parece sempre a última. Um dia vai ser. E vai ser o dia mais feliz e triste ao mesmo tempo. E quando chegar a hora, estarei pronta, é uma certeza. Já estou. E como é bom lembrar, eu não tenho medo.